Para o dia dos pais

(Mais) Um belo texto do Cristo do Nordeste de Amaralina. Tem muito mais aqui ó.

Os incríveis brancaleones Rubro-Negros

agosto 5, 2010 por Franciel

Autoritário e narcísico, como todo bom pai deve ser, eu tinha um sonho: impor ao meu filho, quando ele desembarcasse neste vale de lágrimas, minhas concepções ético-filosóficas e culturais. Traduzindo: fazia-se mister (recebam, hereges, um mister pelos mamilos e distribuam) torná-lo torcedor do Esporte Clube Vitória.

Otimista e abestalhado, como todo bom pai deve ser, achei que esta seria uma tarefa fácil. No caso específico, principalmente, porque quando meu rebento chegou, no início da década de 90, o brioso Rubro-Negro abandonava um histórico de choro e ranger de dentes e começava a se impor de forma hegemônica (chupa, Gramsci!) no futebol baiano.

Porém, ai porém, (alô, Paulinho da Viola), em verdade lhes informo: hodiernamente, os guris de dois, três anos, não têm mais a menor noção do que realmente importa. E afirmo isso não como uma teoria solta ao vento, mas baseado em fatos. Vocês, céticos, podem até duvidar, mas a realidade é que, em 1993, o menino Sandro (eis o nome do santo) não vibrou com aquela máquina assassina que encantou o país e sagrou-se vice-campeã, enfrentando o poderio da multinacional parmalat.

Persistente e crédulo, como todo bom pai deve ser, mesmo depois desta falha, deste pecado original, continuei acreditando que ainda era possível convertê-lo para o caminho da salvação. E lhe falei sobre as maravilhas que o menino Petkovic fazia, em 1997, e do carrossel montado, em 1999, por Toninho Cerezo.

Em vão.

Assim, derrotado e humilhado nas quatro linhas, restou-me apelar: já que o sacaninha não queria saber de bola, teria que impingi-lo com minha falsa erudição. Vocês podem achar isso démodé, mas sou do Tempo do Carrancismo, quando tínhamos a obrigação moral de deixar marcas indeléveis em nossos herdeiros.

Por isso, tal e qual um vaqueiro perverso, com a ferradura em punho, distribuí gracilianos e guimarães, bandeiras e drummonds, além de outros maizomenos cotados. No entanto, mais teimoso do que mula ruim, ele empacou em aleivosias do tipo de harry potter.

Então, vendo que literatura não dava camisa a ninguém, ou melhor, não vestia camisa em ninguém, fui para outra trincheira: cinema. Na época, uma febre nipônica adentrava o imaginário dos guris. Com o mesmo senso de oportunidade de um Índio da Costa, sugeri Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. O menino, percebendo que a vida não é filme (japonês), saiu debaixo e disse que gostava de lutas. E lá vou eu com o velho o bom Spartacus, de Kubrick. E ele disse nécaras e nada.

Violento e impiedoso, como todo bom pai deve ser, pensei em abandonar estas frescuras da educação moderna e aplicar o método tradicional: madeira no lombo do desinfeliz até que ele ficasse parecido comigo. Porém, na hora que já ia pegar o cansanção, o improvável aconteceu: os olhos dele brilharam para a obra de Mário Monicelli. Minha honra e o lombo do guri foram salvos pelo Incrível Exército de Brancaleone. E rimos juntos. E, ao perceber que de alguma forma estávamos mais próximos, eu quase chorei.

Maestro, corta o melodrama e volte novamente para o futebol.

Mutatis mutandis, o atual elenco do Rubro-Negro pode ser comparado aos personagens da referida comédia. E tal analogia reforça-se quando lembramos os protagonistas do Leão. A eles. A armada Rubro-Negra é defendida por um goleiro colombiano que estava no ostracismo no Atlético (PR). Na lateral-direita (ala é a puta que o pariu) um cidadão que carrega as dores e esperanças de seu estado natal, a Paraíba. A zaga é composta de dois garotos da divisão de base. Na lateral-esquerda (ala vocês já sabem quem é) um renegado do futebol carioca. Na cabeça de área, um cara que em 2005 abandonou a primeira divisão para jogar na Terceirona pela Leão. Ainda no meio, tem um jogador que, aos 38, insiste em lutar contra o tempo. O craque da equipe, Elkesson, teve que fraudar a própria identidade para poder jogar bola. Na frente, outro que, por questões, digamos, documentais acabou no xilindró recentemente. Não bastasse, ainda são comandados por um técnico que nunca foi técnico.

Por tudo isso, mesmo chegando à final da Copa do Brasil, preferi não fazer pressão sobre meu filho. Afinal, se os timaços de 1993, 1997 e 1999 não entusiasmaram o referido, não seria este que faria o milagre. Assim, contentei-me que estivéssemos juntos, ao menos, no apreço cinematográfico.

Na madrugada de hoje, porém, ao chegar em casa completamente grogue, cheirando a álcool e fumando sem cessar – como todo bom pai deve fazer quando seu time perde uma final – ouvi as seguintes palavras do guri. “Meu pai, o Vitória jogou muito”.

Tal frase, que aos ouvidos de muitos soaria como uma mera platitude, me deixou desnorteado emocionalmente, com os olhos rasos d’água – de verdade. E agradeci a estes incríveis (limitados e desajeitados) gladiadores Rubro-Negros. Afinal, eles me deram algo muito mais importante do que o título que não veio, mas ainda virá. Eles fizeram com que MEU filho, pela primeira vez, tivesse orgulho de MEU time.

Obrigado, rebain de sacanas.

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