Passagem das horas*

(…)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

(…)

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

(…)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(…)

Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação …

* Ficções do Interlúdio/4 – Poesias de Álvaro de Campos

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2 Responses to Passagem das horas*

  1. poetriz disse:

    “E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.”

    Eu tb… eu tb…

    Resposta do editor:
    ( … )
    Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
    Senão saber isto:
    Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
    Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
    ( … )

  2. sora disse:

    emece,
    ninguem precisa ler isto numa tarde ressaqueada de sábado.
    Obrigada e bjs

    O editor recita:
    Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
    Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
    A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
    E se tiverem a necessidade doentia de “interpretar” a erva verde sobre a minha sepultura,
    Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.

    Quando a erva crescer, in Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro

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